terça-feira, novembro 30, 2021

Um ano de quarentena

Um ano de quarentena

Eu lembro que peguei um ônibus meio vazio com uma amiga, depois de uma gravação, e passamos rápido no mercado pra comprar umas Heinekens. Tentando não encostar muito nas coisas, mas ainda sem medo de respirar – e, muito menos, de perder o ar. Bebemos sentadas na cama, sem temer a proximidade, sem desassossego com a ventilação, sem receio de dividir um gargalo.

No dia seguinte, a vida já não era mais assim. Porta fechada, ninguém por perto. Pequenas e grandes mudanças de hábito. Saía para caminhar, serpenteando pelas ruas desertas do bairro. Usava máscara de tecido me sentindo hiperbólica, exagerada. Ficava olhando pela janela, esperando que algo me arrancasse do tédio.

Passei a escrever mais: contos, textos, cartas mentais. Resolvia problemas do passado, pensando no futuro que eu acreditava próximo. Cozinhava receitas demoradas só pra mim – pra passar o tempo e pra me sentir presente. Comi muito cuscuz de café da manhã, de almoço, de janta.Tive muitas fases. Não tive a ânsia de cortar a franja, mas quis pintar o cabelo em casa – a tinta continua no banheiro, intacta. Encontrei o amor em um ambiente que sempre acreditei hostil. Me apaixonei por ele e por mim mesma, de novo. Dancei sozinha e aprendi a amar minha companhia. Me descobri introspectiva, mesmo sendo tão extrovertida. Talvez eu não seja exatamente quem eu pensava, e tudo bem.

Assisti muita série, muito documentário, muito filme. Li muita notícia e chorei, chorei, chorei de soluçar. Tiveram almoços em família, à distância, e viagens pro silêncio do sítio. Bordei e enjoei de bordar. Lavei louças infinitas e pedi delivery só pra não precisar lavar nada.

E, feito magia macabra, duas semanas viraram um ano de quarentena. E a falta de perspectiva continua sendo frustrante; a falta de humanidade, idem. O que continua igualzinho é que eu acordo, fervo a água, passo café. Me acomodo na cama, encho a xícara e respiro fundo. Às vezes dá vontade de chorar, às vezes eu fico inspirada como nunca. E assim segue o mistério dos dias, com o que tem, como dá, sendo feliz nas frestas. Vai passar.

Obs: Ainda sigo com mania de explicação, até que não me caiba mais, por isso aviso que o relógio está errado.

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Bárbara Pustai
Eu como comida fria e tiro umas fotos por aí! Vem comigo?

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